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EM MEMÓRIA DE JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES




HÁ SOMBRAS NO ARVOREDO
Há sombras no arvoredo
da tua floresta
sempre banhada pelo sol,
mesmo quando o metias
na gaveta .
A seiva brota agora
com mais força
do tronco dilacerado
pelo implacável machado dos Deuses .
Vê como a semente germina
tão poucos dias passados
desde que chegaste
ao Olimpo .
Castanheira Barros - Coimbra, 3 de Abril de 2005
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QUANDO A MENTE BLOQUEIA…
A mente bloqueia
não vê
agua cristalina
nem riacho,
tão só
poluente mamarracho.
Foi-se a lufada de ar fresco
vinda das entranhas
do oceano
sob a forma de poeta .
Foi-se o instinto
foi-se a garra
até a força da amarra .
Barco à deriva
(será jangada ? )
não encontra a Ilha
donde fugiu a semente .
Aos 50
a amizade não mora
ao dobrar da esquina .
Quantos cumprimentos
quantos sorrisos
quantos novos conhecimentos
quantos risos
quantos caminhos percorridos
sem percorrer um quilómetro .
Falta o hábito da morte
para abraçar Aristóteles .
Até lá a dor .
Two beer or not two beer
eis a questão .
Sem palavras,
escrevi Neruda pelo teu punho .
A derradeira mensagem
já não a ouviste
deixaras de estar,
sem avisar,
“ À espera dos Deuses “.
O Diálogo não finda
quando o Amigo se fina .
Se a lágrima manchar
o poema,
ou lá que seja,
não te atormentes
Amigo
pois há força que sobeja
pr’a lutar, pr’a lutar .
Castanheira Barros Coimbra, 3 de Abril de 2005
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A PROSA DO POETA
Busco,
faminto,
a prosa do poeta
a sair do labirinto
ao lusco-fusco.
Nela,
vejo-o sempre
ao espelho,
no Bar do Teatro
ou nas ruas,
velhas,
do Funchal.
Cristalina,
como a mais pura das águas,
ei-la,
que vai chegando,
a conta-gotas,
das gargantas secas
transbordantes
de palavras surdas
que se movem
no teclado.
São murmúrios virtuais
que escondem
o grito
que só tu,
infinitamente poeta,
consegues ouvir.
O poeta não morre,
mas o amigo sim,
com violência,
até renascer.
Castanheira Barros
Coimbra, 17 de Abril de 2005
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DO OLIMPO A S. MARTINHO
Ficaste escondido
no local onde repousa a tua imagem
com a abrupta montanha,
vestida de verde,
como pano de fundo .
Alguns não sabem ainda
que rumaste ao infinito
e te deram a morada
com o nr. 1005 .
Na lápide ostentas
o sorriso que sempre dirigiste
aos teus mil e um Amigos
mesmo quando já
se te roíam as entranhas .
Até na morte
foste sublime .
Que longos foram
aqueles trajectos curtos
que percorremos
do Bar do Teatro
ao Carbonara,
ao S. Pedro,
ao Minas Gerais,
onde o alimento físico
se misturava com o espiritual,
numa simbiose quase perfeita
porque tu estavas ali .
São caminhos que iremos
continuar a percorrer juntos,
contigo à frente,
distribuindo abraços
e incentivos .
Quem contigo navegou
sabe como enfrentar a tempestade
e saborear a bonança .
Os sons do acordeão
continuarão a ecoar
na avenida do mar
onde há gravatas
por debaixo das mesas
da esplanada .
«- Passa lá isso ao Jorge,
senão não nos governamos »,
disseste ao acordeonista
que esqueceu as moedas
para beber,
com deleite,
as tuas ideias
condimentadas com notas soltas
de música brejeira .
Que estranhos são
os sons da cidade
a que faltam
os calorosos risos
que arrancavas
das pedras da calçada .
Obrigado José António,
por teres aceitado o convite
para estares connosco
aqui esta noite .
Jorge Castanheira Barros
Funchal 12.01.2006 Homenagem ao Amigo e Poeta
JAG - José António Gonçalves
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À MEMÓRIA DO POETA
José António Gonçalves
Amavas a palavra.
Como poucos a cantaste
e fizeste
a eterna musa da luz.
Porque sentias a poesia
como um acto de existir ou de morrer
te foste...
E subitamente
a voz dos deuses
se sobrepôs à tua
cantando loas aos mortos.
Quanta vez
não permitiste aos pássaros
a maravilha do canto?!
Não foste a ave liberta
pela mão do sol?!
E ficaste
meteoro incandescente
no rasto
dos poetas que se foram?!
Hoje és soberano do Parnaso
aonde ascendeste
para tertúlias eternas.
Fátima Pitta Dionísio
Funchal, 3 de Abril de 2005
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TUDO É POESIA
Para o José António Gonçalves
Troca-se
uns arcos de templos sagrados
desenhados na poesia do olhar
uns riachos de água fresca
beijando a vegetação as pedras os peixes
uma colina de cristal lapidada
ainda na imaginação
uma promessa impensada
de nunca escrever saudade
os ponteiros os relógios o tempo
e até o que não me pertence
algo como um pensamento que fugisse
da fronte dourada de Budha
troca-se
troca-se tudo
pela notícia de que é tudo
tudo mentira.
Brincavas talvez
como nas histórias do menino
que inventava tarântulas
e outras infantis aventuras
um bater de portas
uns repentinos clarões
e depois
nada
a não ser as abençoadas mãos
da mãe ou da avó
onde te refugiavas.
Troca-se
troca-se tudo pela certeza
e só por ela
de que é tudo
tudo mentira.
Mas se de tudo
isso não for possível
então descansa
descansa porque tudo
tudo é mesmo poesia.
Por ela respiras
e eu também.
Cissa de Oliveira
02.04.05
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UMA ÂNCORA NA BAÍA DO FUNCHAL
Ao José António Gonçalves , in memoriam
DO CAIS DO FUNCHAL PELO SUBLIME SIGILO DA MANHÃ
UMA NAU ZARPOU RUMO A DELFOS, APREGOAVA O VELHO
MEIO LOUCO REPARTINDO PÃO COM OS PARDAIS.
NA AVENIDA NINGUÉM ATENDIA AO HOMEM RECITANDO,
SÓ UM CATRAIO LHE GRITOU DE PASSAGEM
— NAUS NÃO EXISTEM MAIS! SÓ TRANSATLÂNTICOS.
VERDADE OU MENTIRA,
NA BAÍA DO FUNCHAL ENTRE A AZÁFAMA DOS PEIXES
ENCONTRARAM UMA ÂNCORA, UMA INSCRIÇÃO
QUASE ILEGÍVEL QUE OS CÉPTICOS INSISTEM
SER CRIAÇÃO DO VELHO; VERDADE OU MENTIRA,
SOB A LAMA QUE FOI CAMA
DA VELHA ÂNCORA REPOUSAVA UM MANUSCRITO,
MEIO APAGADA A EXORTAÇÃO
... SE PUBLIQUE: UMA NAU ZARPOU RUMO A DELFOS
QUANDO SUA ÂNCORA RELUZENTE DORME NA BAÍA DO FUNCHAL,
SE CHAMA POESIS E FOI CONSTRUÍDA NO ANO DA GRAÇA …
VERDADE OU MENTIRA PUBLICARAM, AGORA DIZEM
QUE O VELHO NÃO ERA VELHO NEM SEQUER MEIO LOUCO.
ERA APENAS POETA. PARA OUTROS UM PARDAL.
IVO MACHADO
PORTO, 30 DE MARÇO DE 2005
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UM POETA SE FOI
A José António Gonçalves - JAG
Tive todo tempo
para te dizer
das belezas que tuas letras
traziam. E disse.
Tive tempo, e louvei, em risos alegres,
tua gentileza, afecto, inteligência,
disponibilidade em doar-se em plenitude.
Certa vez, numa dessas listas frias,
onde ninguém lê ninguém,
num puro desfile narcísico,
te enviei um: " Que preciosas letras"!
De ti, recebi : " Tua voz é sol em meio
a geleiras..."
Eras simples como o vento,
a chuva, o mar, o ar...
Belo como a própria natureza,
que sempre reverenciaste.
Não choro. Apenas subtilmente
me abraço às tuas letras..
Belvedere
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PARA FALAR DE TI OU A ARTE DO SILÊNCIO
(para o meu amigo JAG)
Pedem-me
Que fale
De ti…
Não sei
Se falo
Do humor
Feito
Gargalhada
Cindida
Ou
Se explico
a ironia
feita génio e
cesura…
Quem sabe,
Falo só
daquela bondade
sem limites
e
sem
espaço
para
rancores
Ou, então,
daquela generosidade
sem fim
Onde não
havia
um único
recanto para o
“eu”.
Não, afinal
prefiro
não
falar
de ti!
Delfos
é agora
um oráculo
mudo
onde
pratico
a arte
do
silêncio.
É aqui que
espero
de Pitonisa
as respostas
que Apolo
tarda em me dar!
Em silêncio
Francisco Fernandes
29 de Março de 2005
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Querido José António:
- É difícil falar
de quem se gosta
porque é nesse gostar
de quem se fala
que tudo se esgota.
(Num abraço, teu sempre Aurelino Costa.Argivai,Póvoa de Varzim,11 de Maio de 2005).
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